quarta-feira, 28 de maio de 2014

PAZ (2)

PAZ (2)

VIVER EM PAZ É UMA ARTE

Viver em paz é uma arte,
saber vive-la é um mérito...
Na realidade ou na fantasia,
é coisa a ser vivida a cada dia...
Sabendo viver nossa paz interior,
já é meio caminho andado...
Para que perder tempo brigando, discutindo?
Deixando o coração magoado,
ao invés de apenas procurar a paz interior...
A melhor coisa é ignorar o que nos desagrada,
pois é assim que se obtém a paz interior...
Esquecendo mágoas, ofensas,
procurando apenas viver a vida,
vivendo um pouco a cada dia...
Mas devemos faze-lo com arte e muito cuidado...
A vida é uma arte...
E vive-la em paz, arte maior ainda...

APAZ INTERIOR(1)

A PAZ INTERIOR (1)

A paz está dentro de nós. Ou então não existe. Se é no espírito dos homens que começam as guerras, então, como disse Robert Muller em 1989, “é nas escolas da Terra que se moldará a nova consciência, capaz de pôr um termo a toda violência”.

Para entender melhor aonde nos leva a visão da paz como um fenômeno externo ao homem, acompanhemos o seguinte raciocínio: onde não há ódio, não há guerra; nem haverá nunca; também não existirá conflito armado onde não houver armas; mas, se não tratarmos o interior dos homens, bastará que alguém forneça a munição, e o conflito explodirá tão ou mais forte que antes. O ódio habita o interior das pessoas, enquanto as armas são um sinal exterior. 


Não é assim. A paz é um fenômeno mais complexo, que exige a contribuição de outras ciências e de outros saberes para ser explicado. Ao afirmarmos isso, contudo, não estamos desmerecendo a enorme contribuição que as ciências sociais deram ao conhecimento das causas e do desenvolvimento da guerra e da paz. Ainda dentro do quadro de referenciais externos ao homem, podemos distinguir dois estados diferentes da paz:

terça-feira, 27 de maio de 2014

BURACO DA SOLIDÃO

BURACO DA SOLIDÃO.

sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

Buraco da Solidão...

Reformulei, construi e aprendi de uma maneira mais estúpida o que era procurar algo no meio de um imenso infinito espaço. Fiz buracos e coloquei tijolos. Construí barreiras e criei lagos, pus de pé as arvores e plantei flores. Descobri dentro de mim uma imensidão de felicidade, a qual estava impedida de emergir devido a imensidão de tijolos que em mim construíam um muro. Podia ser o muro das lamentações, o muro do amor, mas era mais que isso. Era uma prisão em barro que nem as minhas pobres lágrimas podiam lá passar. Com força peguei num martelo e destruí o muro e com ele foram os cacos da minha felicidade. Com os pedaços do muro, foram também os pedaços do meu ser, pedi formas, amizades, mas acima de tudo perdi-me a mim. Quis regressar ao que era antes, mas não consegui-a. Procurei conquistar o meu coração, mas não consegui. Tudo aquilo era o reflexo ofusco do meu maior medo. A solidão. O romper do muro, fizera com que rompesse também que eu era. Já não havia cimento suficiente para voltar a erguer este muro e recuperar todos os seus pedaços. Estava com medo, porque este sentimento penetrou dentro de mim  e nunca mais me largou, criando assim uma ligação tenebrosa em mim e ele. O tempo ia passando e a minha força ia morrendo, as minhas entranhas sentimentais vinham a florescer dentro de mim. Já não sabia se sonhava, ou se ria, se gritava ou estava calado, se via ou fazia que via, só tinha uma certeza de que estava preso num buraco onde reinava a solidão, que tinha lágrimas congeladas dentro dos meu olhos, que as minhas mãos tremiam de medo e o meu corpo estava congelado de tanta solidão. Não desisti, o tempo pode ter passado, as lágrimas podem estar congeladas, o meu caminho pode-se ter desfeito, mas nunca perdi. Por isso voltei a reformular e a construir. Naveguei a fundo do buraco e foi pegando em cada pedaço e deles fiz uma escada. Construí novas memórias e dos pedaços encontrados construi uma caixa, que era tão forte que nem a maior cada a podia partir. Fiz cimento e colei-o dentro de mim, mas não foi de propósito, havia um objectivo que era prender as outras e pequenas recordações que estavam dentro de mim. Não foi este buraco que me fez tremer, mas sim aquele sentimento estúpido que me fez tremer, mas derrotei-o e construí um novo, a felicidade...

TRISTEZA SEM FIM

TRISTEZA SEM FIM.

Depressão... a tristeza sem fim

por Maria Isabel de Oliveira - marybelterapeuta@gmail.com

Não é raro ouvir das pessoas a frase “estou deprimido”. Qualquer pequena frustração ou tristeza passou a ser tomada como sinônimo desse mal de difícil erradicação (principalmente por sua complicada identificação).

Todos nós temos nossos dias nublados; por mais que faça sol ou seja feriadão prolongado, às vezes nuvens negras embaçam os olhos de nossa mente e coração. Aquele sentimento esquisito cuja resposta invariável é “não sei” tem um nome: Depressão. Mal moderno, desconhecido nos tempos de juventude de nossos bisavós, parece ter sido incorporado pela humanidade deste século como um arquétipo absolutamente normal.

A tristeza - própria da natureza humana - é igualmente inútil, mas com uma causa definida. Se alguém lhe dirige ofensas: se sua violeta predileta morre em plena floração: se seu bichano some; se você “leva o bolo” de uma pessoa querida, etc, é natural sentir-se triste. Mas aquela tristeza indefinida, de causa desconhecida, que parece se instalar para todo o sempre, que tira umas semanas de férias, mas depois volta com carga redobrada, sem aviso prévio, isso é depressão.

Em lugares de clima frio e de pouco sol, como nos países do hemisfério norte, as crises são mais constantes. Nessas regiões, outono e inverno, caracterizados pela ausência quase total de sol, causam distúrbios no humor das pessoas, já que o frio e a falta de luz intensa do sol parecem facilitar estados depressivos.

A questão mais incômoda no que se refere à depressão é a maneira de combatê-la, já que, geralmente, desconhecemos suas causas. Os sintomas, porém são facilmente detectáveis. Fisicamente um cansaço prolongado (injustificado ou, muitas vezes, resultante de insônia) é bastante comum nas pessoas deprimidas. A preguiça (do tipo “odeio segundas-feiras”) é característica. Também palpitações ou pressão no peito, tonturas, sudorese acentuada, dificuldades respiratórias, resfriados constantes, acidez estomacal e perturbações digestivas (o que está sendo difícil digerir na sua vida?). Perda de apetite (inclusive sexual) denota estados depressivos, além da letargia/ apatia constantes.

Entre os sintomas psicológicos mais comuns destacam-se momentos de profunda tristeza, choro compulsivo sem causa aparente, hostilidade/irritação (principalmente com aqueles que estão de “bem com a vida”), ansiedade desesperança, perda de afeição (dificuldade em dar e receber amor), vontade de morrer (que inclui tentativas de suicídio).

As causas, como já dissemos, são desconhecidas da pessoa que experimenta a depressão, mas se refletem em sua vida prática de várias maneiras. Essas pistas possibilitam identificar o mal com mais clareza, para que possamos diagnosticá-lo e enfrentá-lo. A falta de objetivos futuros ou colocação de metas inadequadas ao seu progresso pessoal, baixa auto-estima (a aparência descuidada é um ótimo sensor de estados depressivos, principalmente nas pessoas vaidosas), falta de realização na carreira, entre outros. Também nos pegamos fazendo comparações absurdas do nosso potencial em relação ao de outras pessoas (valorizamos apenas as qualidades dos outros e exageramos nossos defeitos, sem observar as fraquezas de terceiros).

É considerada normal a depressão pós-parto, comum à maioria das mulheres. Estando em contato íntimo e profundo com o bebê que cresce dentro dela, a mãe sente-se deprimida e “vazia” ao dar à luz. Na esfera profissional, muitas pessoas experimentam o mesmo vazio quando concluem um projeto. Observou-se que os grandes empreendedores mantêm a mente sempre aberta a novas e ousadas criações, projetando-se nos planos que estão por vir. Assim, com metas sempre delineadas à frente, jamais experimentam o esvaziamento típico da depressão pós-parto.

A sensação de frustração e conseqüente estado depressivo, paradoxalmente, acompanha os que, ao contrário, padecem de hiperatividade intelectual. Se os planos ficam só na esfera mental e nunca se realizam no mundo material, tornam-se assustadores fantasmas a entristecer o seu criador.

Quando alguém nos desaponta, também é comum cairmos em depressão. Esta é uma das armadilhas mais perigosas deste mal; aqui é útil lembrar que “ninguém é capaz de fazer você sentir-se desta ou daquela maneira”. Sentir-se, verbo reflexivo, só acontece dentro de você, com a sua permissão; há uma gama enorme de opções de sentimentos à sua escolha. Auxiliado pela razão e pela intuição, você, e ninguém mais, é capaz de decidir qual o estado adequado para o momento.

Os métodos mais conhecidos para tratar a depressão são a administração de medicamentos, a eletroterapia, a psicoterapia e as terapias naturais. O primeiro e mais antigo teve origem através dos curandeiros primitivos. Registros apontam que Hipócrates, há mais de 2 mil anos, prescrevia heléboro, erva medicinal de propriedades analgésicas, aos doentes de males emocionais; os chineses recorriam à efedrina; povos primitivos usavam o ópio, a mescalina e a semente de papoula para trazer euforia às pessoas em estados depressivos.

A partir de meados dos anos 50 e na década de 60, principalmente, as drogas antidepressivas ganharam impulso nos Estados Unidos. De lá para cá, desenvolveram-se vários tipos de drogas. A eletroterapia ou eletroconvulsoterapia, popularmente conhecida como eletrochoque, teve seu auge nos anos 40/50. Os principais efeitos colaterais registrados nos depressivos submetidos a esse tratamento foram dores de cabeça, confusão mental e perturbações de memória.

Embora apresentem resultados rapidamente, cerca de um mês após iniciado o tratamento, tanto a eletroterapia como a terapia por medicamentos têm se revelado eficientes apenas no combate aos sintomas da depressão, e não do mal em si.

A psicoterapia e as terapias naturais, mesmo mais caras e demoradas, na opinião dos especialistas é capaz de causar mudanças mais efetivas de comportamento e conseqüente eliminação dos estados depressivos. Alguns psiquiatras recomendam a combinação destas com uma das terapias anteriormente descritas, objetivando minimizar os males que a depressão causa enquanto não é totalmente eliminada.

Quando perceber que está entrando em depressão, mantenha a cabeça erguida e os olhos voltados para cima. Eu desafio qualquer pessoa a permanecer deprimida dirigindo o olhar e o pensamento para o alto. Não há depressão que resista a uma boa dose de alegria. Agite. Ainda que seja preciso um grande esforço, saia da “segurança” de sua caminha quente e exponha-se. Começe a caminhar ou a correr, faça um passeio, olhe nos olhos das outras pessoas, ande de bicicleta (se souber!!!). Escolha uma música de ritmo agitado e se ponha a dançar. Cultive a coragem e a vontade de viver. Busque ajuda terapêutica, converse com alguém, mantendo ativado o seu diálogo interno “O que quero evitar? Do que estou fugindo?”. Lembre-se de que o que está tentando evitar não desaparecerá até que o enfrente... Aventure-se!!!
Texto revisado por: Cris

INOCÊNCIA PERDIDA 2

INOCÊNCIA PERDIDA 2 

FOLHA - Por que essa alta incidência de massacres em escolas?
HAROLD SCHECHTER
- Não acho que seja uma preferência por escolas. São tipos diferentes de problemas: o garoto que atira no diretor tem um tipo de problema mental, provavelmente mais próximo a casos como o de Columbine -o padrão usual são jovens que se sentem humilhados e querem vingança. Nos dois outros casos, estamos de fato lidando com assassinos em massa suicidas. São, basicamente, doentes.
FOLHA - Que característica faz das escolas alvo preferencial?
SCHECHTER
- Elas são o que se chama "alvo de oportunidade". Se você procura abusar de meninas, um lugar para encontrá-las desprotegidas é a escola. No caso do menino, assim como em Columbine, a escola seria o foco da infelicidade. Os adultos apenas escolheram por causa da oportunidade. Acho que o caso mais recente parece um "crime com imitação" -quando há um crime sensacional e alguém logo em seguida faz algo semelhante.
FOLHA - E mais gente exigirá detectores de metais nas escolas.
SCHECHTER
- Certamente. Terá implicações ainda maiores.
FOLHA - Isso muda o significado cultural da escola. Em "Passatempos Selvagens", o sr. fala sobre como crescemos cercados por imagens de violência e como isso nos afeta. Qual será o impacto desses eventos?
SCHECHTER
- É difícil dizer se esses incidentes não são apenas uma aberração ou representam uma "tendência cultural". Muita gente começa automaticamente a culpar a mídia -videogames violentos, heavy metal. Isso é ridículo. O entretenimento popular sempre foi bastante violento. O de hoje não é mais ou menos violento.
A outra parte é que o entretenimento popular não pode ser culpado por crimes horrendos, e de certa forma essa tese é horrivelmente confirmada por esses dois últimos crimes, pois obviamente não há ligação entre filmes -ou o que quer seja- e as pessoas que cometeram esses crimes [um caminhoneiro e um desempregado].
FOLHA - O problema seria resolvido pela proibição das armas?
SCHECHTER
- Não acho que isso faça desaparecer a violência, mas é óbvio que um jovem perturbado irado com seus professores é diferente portando uma arma automática, em vez de um canivete. São as armas de fogo que tornam esses incidentes tão "fatais".
Nos anos 50, grande parte da programação do horário nobre era de violentos "westerns". O que se fazia era brincar com armas de brinquedo. Há uma histeria sobre a violência no entretenimento popular, que sempre existiu -nos anos 1950, havia aqueles convictos de que histórias em quadrinhos ou o rock and roll eram a causa da delinqüência juvenil.
FOLHA - Mas o herói não era em geral claramente identificável, enquanto hoje há os vilões-heróis?
SCHECHTER
- Vivemos em uma época diferente, menos inocente. É mais difícil aceitar heróis como aceitávamos. É uma época mais "cínica". Só que a cultura popular do passado sempre nos parece mais inocente que a do presente. A questão é o efeito sobre o espectador. Digo que o filme de caubói tem o mesmo efeito em mim que o videogame tem nas crianças de hoje: um jogo ou fantasia excitante que permite fingir que se é violento. Entretenimento popular existe para isso.



INOCÊNCIA PERDIDA

INOCÊNCIA PERDIDA.


A inocência perdida
Especialista em cultura popular diz que entretenimentos violentos não explicam atentados em escolas
ERNANE GUIMARÃES NETO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Educadores e políticos dos EUA reagiram a incidentes envolvendo assassinato e escola -três em seis dias- retomando a discussão sobre condições de segurança nas instituições de ensino.
No último dia 27, um homem de 53 anos molestou sexualmente alunas do ensino médio de uma escola do Colorado, matou uma delas e se matou durante tiroteio com a polícia.
Na última segunda, um homem de 32 anos atirou em dez meninas de uma escola da Pensilvânia, também cometendo suicídio. Entre os dois incidentes, no dia 29, um estudante de 15 anos matou a tiros o diretor de sua escola no Wisconsin.
Segundo o especialista em crimes Harold Schechter, o debate nos EUA pode estar indo na direção errada. Professor de cultura popular na Universidade da Cidade de Nova York, ele defende em "Savage Pastimes" (Passatempos Selvagens, St.
Martin's Press) que o entretenimento popular sempre foi violento e sempre houve pessoas perturbadas. Disse que o problema hoje é simplesmente a facilidade, sem precedentes, de acesso a armas de fogo

quinta-feira, 22 de maio de 2014

POR QUE SER GRATO?

POR QUE SER GRATO?

  • Pelo sol que nos ilumina
  • Pela chuva.
  • Pelo frio.
  • A gratidão sempre nos dá a lembrança do bom amigo. Aquele (a) que vai envelhecendo ao nosso lado, nas lembranças conseguimos ver com os olhos do coração os momentos , engraçados, críticas,  a gratidão não quer dizer que somos  iguais, as diferenças a honestidade que nos uniram.
  • A gratidão é algo que se carrega no peito e isso nos fará sorrir suavemente e eleva a qualidade humana,
  • Há tanto a agradecer pelas pessoas que passaram  e que deixaram suas marcas indeléveis em meu caráter. As que passaram, mas permanecem em mim. A elas já agradeci. As que estão ao meu lado, tem o melhor de mim, sinceridade, confiança, e amor. A mesma gratidão das que já se foram.
  • E não poderia de deixar passar o meu melhor amigo Deus, por me confortar, sua paciência, e sentir a gostosa sensação da sua presença.  ( IVONE)

Por que ser grato Revista Vida Simples nº 136 - 01/10/2013

- O que você está fazendo?

Não era necessário que ela respondesse. Eu sabia o que ela estava fazendo. Estávamos tomando café da manhã, a mesa era farta, o sol entrava resplandecente pelas janelas, a vista de nosso apartamento é linda, nós dois estamos em perfeita saúde e o dia que começava prometia muitas emoções. Ela olhava para fora, e eu sabia que estava agradecendo. Mesmo assim, ela sorriu e me disse, confirmando minha certeza. Gosto disso. A gratidão como filosofia de vida nos faz melhores.

Minha primeira tarefa do dia seria a de escrever meu artigo para a Vida Simples, e eu agradeci pela inspiração. E resolvi escrever sobre gratidão. Com certeza não seria um artigo muito original, pois este assunto já rendeu muitos textos, escritos por pensadores muito melhores que eu. Esopo, por exemplo, explicou que “A gratidão é uma virtude das almas nobres”. Já, Sêneca, mais pragmático, disse que “Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação de sua dívida”. Flaubert queixou-se de alguém dizendo que “Aos incapazes de gratidão nunca faltam pretextos para não a ter”.

Eu não seria nem justo nem coerente se não fosse grato a esses e outros cérebros brilhantes que alinham meus pensamentos e orientam meus escritos. Obrigado, pessoal, valeu!

O café da manhã terminou e começou o dia. E começou melhor porque sentíamos, ambos, uma gratidão antecipada pelo dia que tínhamos pela frente. Mas a maior gratidão que eu sentia não era pelo café, nem pela paz, nem pelas perspectivas, pois o que eu queria mesmo é que nada disso faltasse a ninguém. A gratidão principal vinha da percepção de eu era capaz de sentir gratidão. E isso me fazia bem.

Gratidão – atitude ou sentimento?

Isso também me fez lembrar de um grande amigo, o Portugal. Eu o conheci quando trabalhei na Universidade do Professor lá no Paraná, e ele era um dos meus mentores. Já avançado em idade, ele tinha sido militar, diplomata e empreendedor, mas em seu peito sempre bateu um coração de educador, então abraçou com força a oportunidade de conduzir a capacitação de professores em um dos projetos mais belos que já se fizeram nessa área.

Até que um dia recebo o telefonema que ninguém gosta nem está preparado para receber. Portugal havia sofrido o derrame que o deixaria limitado por cerca de quatro anos, até o fim. Ele sempre foi extremamente cuidadoso com sua saúde, caminhava com vigor por uma hora de manhã, alimentava-se bem e fazia seus exames regularmente. E tinha aquela alegria natural que também protege a saúde. Mesmo assim, teve um AVC. Coisas da idade, explicou o médico.

Ele já nos deixou, mas não sem antes nos dar mais uma lição de força. Durante o tempo que viveu depois do derrame, ele não  podia caminhar, falava com alguma dificuldade e dependia de ajuda de sua incansável Verinha para as necessidades mais básicas. Mesmo assim, quando o visitava ele me falava de projetos para o futuro, livros que estava lendo, novas ideias, trabalhos que precisavam ser concluídos. Começou a estudar italiano e a frequentar um centro de equoterapia. Coisas do Portugal. À saída, ele costumava dizer: “Tenha gratidão. Sempre”. E sorria um sorriso menor, mas mais verdadeiro.

Foi em uma conversa com ele que eu comecei a entender uma diferença sutil, mas fundamental, entre agradecimento e gratidão. Agradecer é um ato, tem a ver com educação, reconhecimento e justiça. Gratidão é um sentimento, é algo que se carrega no peito, que pertence à pessoa como um valor, uma filosofia de vida. Um agradecimento sincero eleva a qualidade das relações entre as pessoas. Gratidão faz mais que isso. Eleva a qualidade humana de que a tem.

Nada mais justo do que reconhecer o mérito de um ato bom. Agradecer um favor, um apoio, uma gentileza, uma orientação ou uma oportunidade não é apenas uma demonstração de reconhecimento e de educação. É um tributo à justiça.

Eu mesmo tenho que agradecer muito a muitas pessoas por muitas coisas. A meus pais pelos valores que me incutiram. A minha irmã que me incentivou à leitura. Aos professores que me ensinaram, aos médicos que me curaram, aos chefes que me puseram na linha. Aos amigos, às namoradas, aos colegas, aos vizinhos. Tenho muito o que agradecer aos meus filhos e à minha mulher, e estou certo de que ainda terei muitos motivos para agradecer a ela, e a muitos.

Há tanto a agradecer a tanta gente que passou por minha vida e que deixou marcas boas e indeléveis em meu caráter. Essas pessoas passaram, mas permanecem em mim. E sinto gratidão por isso. A elas eu já agradeci, educado que sou, mas a gratidão, aquele sentimento que aquece o peito, este continua comigo.

Agradecer faz bem

Sim, logo aprendi que agradecer é justo, melhora as relações e abre espaço para novos favores. É chato fazer um favor, ser gentil, prestar uma assistência para alguém e não perceber o menor traço de agradecimento. Agradecer é polido, simpático, e prepara o terreno para uma convivência mais agradável e profícua. Lembro de ter aprendido que as três palavras mágicas são “por favor”, “desculpe” e “obrigado”. Teriam sido elas que criaram a civilização.

O fato que me custou mais tempo de percepção, foi que a gratidão e o  agradecimento nem sempre estão juntos. Como já foi dito, o ato de agradecer é nobre e polido, desde que tenha sido gestado no útero da gratidão. Senão é falso e interesseiro. Já a gratidão, esta é algo superior, que pertence ao espírito. Como é bom ser agradecido pela vida com todas as suas possibilidades. Como é necessário ser agradecido até às limitações e dificuldades, pois estas, não só nos melhoram, como nos ajudam a perceber o valor das possibilidades e oportunidades. “Não existiria luz se não fosse a escuridão”, cantou Lulu santos.

Sem fazer nenhum proselitismo, eu afirmo que que sinto imensa gratidão até por todas as crises que tive na vida (e quem não as teve?). No meio do furacão eu me revoltava com a vida, mas depois, pensando bem, eu sempre sai melhor de uma crise do que era quando nela entrei. Não há como pagar o ensinamento que uma crise, de qualquer natureza – emocional, financeira, existencial –, é capaz de incutir em nossa mente e em nossa alma. Sim, há muitas coisas que não há como pagar, a não ser com gratidão.

Quem sente gratidão tem necessidade de agradecer e às vezes não sabe a quem. Em nossa cultura fomos educados a agradecer a Deus, como nosso criador e provedor, tanto é que “graças a Deus” é uma expressão corriqueira, ancorada no arquétipo popular. Quem nunca disse “graças a Deus”?  Essa expressão é tão forte que às vezes as pessoas se esquecem de agradecer a quem as ajudou em termos práticos: o médico, o bombeiro, o amigo, o policial. Bem, sempre podemos alegar que graças a Deus eles estavam por perto. Faz sentido.

Agradecer a Deus faz bem, conforta, alegra e dá uma sensação gostosa de estar acompanhado. Mas às vezes pensamos: “Porque Ele não ajudou aos demais? Porque só a mim? Ou porque só não a mim?”. Mas logo afastamos essa pergunta, por um simples motivo. Ela não tem resposta. Somos muito pequenos para julgar, ou mesmo compreender, todas as intrincadas artimanhas do destino.
Gratidão a quem? A Deus? À vida? Não importa. O importante é a gratidão. Ela engrandece quem a sente e dará um jeito de atingir seu alvo. Sugestão: quando achar que não tem o que ou a quem agradecer, encontre e escute a chilena Violeta Parra: “Gracias a la vida, que me ha dado tanto…”. De preferência na voz da argentina Mercedes Sosa. Você vai agradecer a dica.

Esta é uma edição de aniversário da Vida Simples. Onze anos, quem diria! E eu confesso que sinto uma imensa gratidão aqui no peito por esse convívio maravilhoso de todos os meses. E sinto vontade de agradecer, também. Agradecer aos editores, desde o primeiro, que me convidou, o jornalista Otávio Rodrigues, até nossa querida Aninha Holanda, que atualmente é a responsável por cobrar meus textos.

E, claro, agradecer aos nossos leitores, que são a razão da existência da revista. Muito grato, turma! Mas, veja só: às vezes recebo e-mails de leitores, ou encontro com alguns em eventos ou locais públicos e muitos me agradecem. “Eu estava precisando daquelas palavras”. “Parece que você escreveu para mim”. “Obrigado!”.

Agradecer faz parte. Mas o importante não é isso. Importante é o fato de que todos carregamos em nós o agradecimento. E é ele que nos torna humanos de verdade.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br

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Por que ser grato Revista Vida Simples nº 136 - 01/10/2013

- O que você está fazendo?

Não era necessário que ela respondesse. Eu sabia o que ela estava fazendo. Estávamos tomando café da manhã, a mesa era farta, o sol entrava resplandecente pelas janelas, a vista de nosso apartamento é linda, nós dois estamos em perfeita saúde e o dia que começava prometia muitas emoções. Ela olhava para fora, e eu sabia que estava agradecendo. Mesmo assim, ela sorriu e me disse, confirmando minha certeza. Gosto disso. A gratidão como filosofia de vida nos faz melhores.

Minha primeira tarefa do dia seria a de escrever meu artigo para a Vida Simples, e eu agradeci pela inspiração. E resolvi escrever sobre gratidão. Com certeza não seria um artigo muito original, pois este assunto já rendeu muitos textos, escritos por pensadores muito melhores que eu. Esopo, por exemplo, explicou que “A gratidão é uma virtude das almas nobres”. Já, Sêneca, mais pragmático, disse que “Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação de sua dívida”. Flaubert queixou-se de alguém dizendo que “Aos incapazes de gratidão nunca faltam pretextos para não a ter”.

Eu não seria nem justo nem coerente se não fosse grato a esses e outros cérebros brilhantes que alinham meus pensamentos e orientam meus escritos. Obrigado, pessoal, valeu!

O café da manhã terminou e começou o dia. E começou melhor porque sentíamos, ambos, uma gratidão antecipada pelo dia que tínhamos pela frente. Mas a maior gratidão que eu sentia não era pelo café, nem pela paz, nem pelas perspectivas, pois o que eu queria mesmo é que nada disso faltasse a ninguém. A gratidão principal vinha da percepção de eu era capaz de sentir gratidão. E isso me fazia bem.

Gratidão – atitude ou sentimento?

Isso também me fez lembrar de um grande amigo, o Portugal. Eu o conheci quando trabalhei na Universidade do Professor lá no Paraná, e ele era um dos meus mentores. Já avançado em idade, ele tinha sido militar, diplomata e empreendedor, mas em seu peito sempre bateu um coração de educador, então abraçou com força a oportunidade de conduzir a capacitação de professores em um dos projetos mais belos que já se fizeram nessa área.

Até que um dia recebo o telefonema que ninguém gosta nem está preparado para receber. Portugal havia sofrido o derrame que o deixaria limitado por cerca de quatro anos, até o fim. Ele sempre foi extremamente cuidadoso com sua saúde, caminhava com vigor por uma hora de manhã, alimentava-se bem e fazia seus exames regularmente. E tinha aquela alegria natural que também protege a saúde. Mesmo assim, teve um AVC. Coisas da idade, explicou o médico.

Ele já nos deixou, mas não sem antes nos dar mais uma lição de força. Durante o tempo que viveu depois do derrame, ele não  podia caminhar, falava com alguma dificuldade e dependia de ajuda de sua incansável Verinha para as necessidades mais básicas. Mesmo assim, quando o visitava ele me falava de projetos para o futuro, livros que estava lendo, novas ideias, trabalhos que precisavam ser concluídos. Começou a estudar italiano e a frequentar um centro de equoterapia. Coisas do Portugal. À saída, ele costumava dizer: “Tenha gratidão. Sempre”. E sorria um sorriso menor, mas mais verdadeiro.

Foi em uma conversa com ele que eu comecei a entender uma diferença sutil, mas fundamental, entre agradecimento e gratidão. Agradecer é um ato, tem a ver com educação, reconhecimento e justiça. Gratidão é um sentimento, é algo que se carrega no peito, que pertence à pessoa como um valor, uma filosofia de vida. Um agradecimento sincero eleva a qualidade das relações entre as pessoas. Gratidão faz mais que isso. Eleva a qualidade humana de que a tem.

Nada mais justo do que reconhecer o mérito de um ato bom. Agradecer um favor, um apoio, uma gentileza, uma orientação ou uma oportunidade não é apenas uma demonstração de reconhecimento e de educação. É um tributo à justiça.

Eu mesmo tenho que agradecer muito a muitas pessoas por muitas coisas. A meus pais pelos valores que me incutiram. A minha irmã que me incentivou à leitura. Aos professores que me ensinaram, aos médicos que me curaram, aos chefes que me puseram na linha. Aos amigos, às namoradas, aos colegas, aos vizinhos. Tenho muito o que agradecer aos meus filhos e à minha mulher, e estou certo de que ainda terei muitos motivos para agradecer a ela, e a muitos.

Há tanto a agradecer a tanta gente que passou por minha vida e que deixou marcas boas e indeléveis em meu caráter. Essas pessoas passaram, mas permanecem em mim. E sinto gratidão por isso. A elas eu já agradeci, educado que sou, mas a gratidão, aquele sentimento que aquece o peito, este continua comigo.

Agradecer faz bem

Sim, logo aprendi que agradecer é justo, melhora as relações e abre espaço para novos favores. É chato fazer um favor, ser gentil, prestar uma assistência para alguém e não perceber o menor traço de agradecimento. Agradecer é polido, simpático, e prepara o terreno para uma convivência mais agradável e profícua. Lembro de ter aprendido que as três palavras mágicas são “por favor”, “desculpe” e “obrigado”. Teriam sido elas que criaram a civilização.

O fato que me custou mais tempo de percepção, foi que a gratidão e o  agradecimento nem sempre estão juntos. Como já foi dito, o ato de agradecer é nobre e polido, desde que tenha sido gestado no útero da gratidão. Senão é falso e interesseiro. Já a gratidão, esta é algo superior, que pertence ao espírito. Como é bom ser agradecido pela vida com todas as suas possibilidades. Como é necessário ser agradecido até às limitações e dificuldades, pois estas, não só nos melhoram, como nos ajudam a perceber o valor das possibilidades e oportunidades. “Não existiria luz se não fosse a escuridão”, cantou Lulu santos.

Sem fazer nenhum proselitismo, eu afirmo que que sinto imensa gratidão até por todas as crises que tive na vida (e quem não as teve?). No meio do furacão eu me revoltava com a vida, mas depois, pensando bem, eu sempre sai melhor de uma crise do que era quando nela entrei. Não há como pagar o ensinamento que uma crise, de qualquer natureza – emocional, financeira, existencial –, é capaz de incutir em nossa mente e em nossa alma. Sim, há muitas coisas que não há como pagar, a não ser com gratidão.

Quem sente gratidão tem necessidade de agradecer e às vezes não sabe a quem. Em nossa cultura fomos educados a agradecer a Deus, como nosso criador e provedor, tanto é que “graças a Deus” é uma expressão corriqueira, ancorada no arquétipo popular. Quem nunca disse “graças a Deus”?  Essa expressão é tão forte que às vezes as pessoas se esquecem de agradecer a quem as ajudou em termos práticos: o médico, o bombeiro, o amigo, o policial. Bem, sempre podemos alegar que graças a Deus eles estavam por perto. Faz sentido.

Agradecer a Deus faz bem, conforta, alegra e dá uma sensação gostosa de estar acompanhado. Mas às vezes pensamos: “Porque Ele não ajudou aos demais? Porque só a mim? Ou porque só não a mim?”. Mas logo afastamos essa pergunta, por um simples motivo. Ela não tem resposta. Somos muito pequenos para julgar, ou mesmo compreender, todas as intrincadas artimanhas do destino.
Gratidão a quem? A Deus? À vida? Não importa. O importante é a gratidão. Ela engrandece quem a sente e dará um jeito de atingir seu alvo. Sugestão: quando achar que não tem o que ou a quem agradecer, encontre e escute a chilena Violeta Parra: “Gracias a la vida, que me ha dado tanto…”. De preferência na voz da argentina Mercedes Sosa. Você vai agradecer a dica.

Esta é uma edição de aniversário da Vida Simples. Onze anos, quem diria! E eu confesso que sinto uma imensa gratidão aqui no peito por esse convívio maravilhoso de todos os meses. E sinto vontade de agradecer, também. Agradecer aos editores, desde o primeiro, que me convidou, o jornalista Otávio Rodrigues, até nossa querida Aninha Holanda, que atualmente é a responsável por cobrar meus textos.

E, claro, agradecer aos nossos leitores, que são a razão da existência da revista. Muito grato, turma! Mas, veja só: às vezes recebo e-mails de leitores, ou encontro com alguns em eventos ou locais públicos e muitos me agradecem. “Eu estava precisando daquelas palavras”. “Parece que você escreveu para mim”. “Obrigado!”.

Agradecer faz parte. Mas o importante não é isso. Importante é o fato de que todos carregamos em nós o agradecimento. E é ele que nos torna humanos de verdade.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br
- See more at: http://eugeniomussak.com.br/gratidao/#sthash.tpnYXO03.dpuf

Por que ser grato Revista Vida Simples nº 136 - 01/10/2013

- O que você está fazendo?

Não era necessário que ela respondesse. Eu sabia o que ela estava fazendo. Estávamos tomando café da manhã, a mesa era farta, o sol entrava resplandecente pelas janelas, a vista de nosso apartamento é linda, nós dois estamos em perfeita saúde e o dia que começava prometia muitas emoções. Ela olhava para fora, e eu sabia que estava agradecendo. Mesmo assim, ela sorriu e me disse, confirmando minha certeza. Gosto disso. A gratidão como filosofia de vida nos faz melhores.

Minha primeira tarefa do dia seria a de escrever meu artigo para a Vida Simples, e eu agradeci pela inspiração. E resolvi escrever sobre gratidão. Com certeza não seria um artigo muito original, pois este assunto já rendeu muitos textos, escritos por pensadores muito melhores que eu. Esopo, por exemplo, explicou que “A gratidão é uma virtude das almas nobres”. Já, Sêneca, mais pragmático, disse que “Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação de sua dívida”. Flaubert queixou-se de alguém dizendo que “Aos incapazes de gratidão nunca faltam pretextos para não a ter”.

Eu não seria nem justo nem coerente se não fosse grato a esses e outros cérebros brilhantes que alinham meus pensamentos e orientam meus escritos. Obrigado, pessoal, valeu!

O café da manhã terminou e começou o dia. E começou melhor porque sentíamos, ambos, uma gratidão antecipada pelo dia que tínhamos pela frente. Mas a maior gratidão que eu sentia não era pelo café, nem pela paz, nem pelas perspectivas, pois o que eu queria mesmo é que nada disso faltasse a ninguém. A gratidão principal vinha da percepção de eu era capaz de sentir gratidão. E isso me fazia bem.

Gratidão – atitude ou sentimento?

Isso também me fez lembrar de um grande amigo, o Portugal. Eu o conheci quando trabalhei na Universidade do Professor lá no Paraná, e ele era um dos meus mentores. Já avançado em idade, ele tinha sido militar, diplomata e empreendedor, mas em seu peito sempre bateu um coração de educador, então abraçou com força a oportunidade de conduzir a capacitação de professores em um dos projetos mais belos que já se fizeram nessa área.

Até que um dia recebo o telefonema que ninguém gosta nem está preparado para receber. Portugal havia sofrido o derrame que o deixaria limitado por cerca de quatro anos, até o fim. Ele sempre foi extremamente cuidadoso com sua saúde, caminhava com vigor por uma hora de manhã, alimentava-se bem e fazia seus exames regularmente. E tinha aquela alegria natural que também protege a saúde. Mesmo assim, teve um AVC. Coisas da idade, explicou o médico.

Ele já nos deixou, mas não sem antes nos dar mais uma lição de força. Durante o tempo que viveu depois do derrame, ele não  podia caminhar, falava com alguma dificuldade e dependia de ajuda de sua incansável Verinha para as necessidades mais básicas. Mesmo assim, quando o visitava ele me falava de projetos para o futuro, livros que estava lendo, novas ideias, trabalhos que precisavam ser concluídos. Começou a estudar italiano e a frequentar um centro de equoterapia. Coisas do Portugal. À saída, ele costumava dizer: “Tenha gratidão. Sempre”. E sorria um sorriso menor, mas mais verdadeiro.

Foi em uma conversa com ele que eu comecei a entender uma diferença sutil, mas fundamental, entre agradecimento e gratidão. Agradecer é um ato, tem a ver com educação, reconhecimento e justiça. Gratidão é um sentimento, é algo que se carrega no peito, que pertence à pessoa como um valor, uma filosofia de vida. Um agradecimento sincero eleva a qualidade das relações entre as pessoas. Gratidão faz mais que isso. Eleva a qualidade humana de que a tem.

Nada mais justo do que reconhecer o mérito de um ato bom. Agradecer um favor, um apoio, uma gentileza, uma orientação ou uma oportunidade não é apenas uma demonstração de reconhecimento e de educação. É um tributo à justiça.

Eu mesmo tenho que agradecer muito a muitas pessoas por muitas coisas. A meus pais pelos valores que me incutiram. A minha irmã que me incentivou à leitura. Aos professores que me ensinaram, aos médicos que me curaram, aos chefes que me puseram na linha. Aos amigos, às namoradas, aos colegas, aos vizinhos. Tenho muito o que agradecer aos meus filhos e à minha mulher, e estou certo de que ainda terei muitos motivos para agradecer a ela, e a muitos.

Há tanto a agradecer a tanta gente que passou por minha vida e que deixou marcas boas e indeléveis em meu caráter. Essas pessoas passaram, mas permanecem em mim. E sinto gratidão por isso. A elas eu já agradeci, educado que sou, mas a gratidão, aquele sentimento que aquece o peito, este continua comigo.

Agradecer faz bem

Sim, logo aprendi que agradecer é justo, melhora as relações e abre espaço para novos favores. É chato fazer um favor, ser gentil, prestar uma assistência para alguém e não perceber o menor traço de agradecimento. Agradecer é polido, simpático, e prepara o terreno para uma convivência mais agradável e profícua. Lembro de ter aprendido que as três palavras mágicas são “por favor”, “desculpe” e “obrigado”. Teriam sido elas que criaram a civilização.

O fato que me custou mais tempo de percepção, foi que a gratidão e o  agradecimento nem sempre estão juntos. Como já foi dito, o ato de agradecer é nobre e polido, desde que tenha sido gestado no útero da gratidão. Senão é falso e interesseiro. Já a gratidão, esta é algo superior, que pertence ao espírito. Como é bom ser agradecido pela vida com todas as suas possibilidades. Como é necessário ser agradecido até às limitações e dificuldades, pois estas, não só nos melhoram, como nos ajudam a perceber o valor das possibilidades e oportunidades. “Não existiria luz se não fosse a escuridão”, cantou Lulu santos.

Sem fazer nenhum proselitismo, eu afirmo que que sinto imensa gratidão até por todas as crises que tive na vida (e quem não as teve?). No meio do furacão eu me revoltava com a vida, mas depois, pensando bem, eu sempre sai melhor de uma crise do que era quando nela entrei. Não há como pagar o ensinamento que uma crise, de qualquer natureza – emocional, financeira, existencial –, é capaz de incutir em nossa mente e em nossa alma. Sim, há muitas coisas que não há como pagar, a não ser com gratidão.

Quem sente gratidão tem necessidade de agradecer e às vezes não sabe a quem. Em nossa cultura fomos educados a agradecer a Deus, como nosso criador e provedor, tanto é que “graças a Deus” é uma expressão corriqueira, ancorada no arquétipo popular. Quem nunca disse “graças a Deus”?  Essa expressão é tão forte que às vezes as pessoas se esquecem de agradecer a quem as ajudou em termos práticos: o médico, o bombeiro, o amigo, o policial. Bem, sempre podemos alegar que graças a Deus eles estavam por perto. Faz sentido.

Agradecer a Deus faz bem, conforta, alegra e dá uma sensação gostosa de estar acompanhado. Mas às vezes pensamos: “Porque Ele não ajudou aos demais? Porque só a mim? Ou porque só não a mim?”. Mas logo afastamos essa pergunta, por um simples motivo. Ela não tem resposta. Somos muito pequenos para julgar, ou mesmo compreender, todas as intrincadas artimanhas do destino.
Gratidão a quem? A Deus? À vida? Não importa. O importante é a gratidão. Ela engrandece quem a sente e dará um jeito de atingir seu alvo. Sugestão: quando achar que não tem o que ou a quem agradecer, encontre e escute a chilena Violeta Parra: “Gracias a la vida, que me ha dado tanto…”. De preferência na voz da argentina Mercedes Sosa. Você vai agradecer a dica.

Esta é uma edição de aniversário da Vida Simples. Onze anos, quem diria! E eu confesso que sinto uma imensa gratidão aqui no peito por esse convívio maravilhoso de todos os meses. E sinto vontade de agradecer, também. Agradecer aos editores, desde o primeiro, que me convidou, o jornalista Otávio Rodrigues, até nossa querida Aninha Holanda, que atualmente é a responsável por cobrar meus textos.

E, claro, agradecer aos nossos leitores, que são a razão da existência da revista. Muito grato, turma! Mas, veja só: às vezes recebo e-mails de leitores, ou encontro com alguns em eventos ou locais públicos e muitos me agradecem. “Eu estava precisando daquelas palavras”. “Parece que você escreveu para mim”. “Obrigado!”.

Agradecer faz parte. Mas o importante não é isso. Importante é o fato de que todos carregamos em nós o agradecimento. E é ele que nos torna humanos de verdade.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br
- See more at: http://eugeniomussak.com.br/gratidao/#sthash.tpnYXO03.dp

Por que ser grato Revista Vida Simples nº 136 - 01/10/2013

- O que você está fazendo?

Não era necessário que ela respondesse. Eu sabia o que ela estava fazendo. Estávamos tomando café da manhã, a mesa era farta, o sol entrava resplandecente pelas janelas, a vista de nosso apartamento é linda, nós dois estamos em perfeita saúde e o dia que começava prometia muitas emoções. Ela olhava para fora, e eu sabia que estava agradecendo. Mesmo assim, ela sorriu e me disse, confirmando minha certeza. Gosto disso. A gratidão como filosofia de vida nos faz melhores.

Minha primeira tarefa do dia seria a de escrever meu artigo para a Vida Simples, e eu agradeci pela inspiração. E resolvi escrever sobre gratidão. Com certeza não seria um artigo muito original, pois este assunto já rendeu muitos textos, escritos por pensadores muito melhores que eu. Esopo, por exemplo, explicou que “A gratidão é uma virtude das almas nobres”. Já, Sêneca, mais pragmático, disse que “Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação de sua dívida”. Flaubert queixou-se de alguém dizendo que “Aos incapazes de gratidão nunca faltam pretextos para não a ter”.

Eu não seria nem justo nem coerente se não fosse grato a esses e outros cérebros brilhantes que alinham meus pensamentos e orientam meus escritos. Obrigado, pessoal, valeu!

O café da manhã terminou e começou o dia. E começou melhor porque sentíamos, ambos, uma gratidão antecipada pelo dia que tínhamos pela frente. Mas a maior gratidão que eu sentia não era pelo café, nem pela paz, nem pelas perspectivas, pois o que eu queria mesmo é que nada disso faltasse a ninguém. A gratidão principal vinha da percepção de eu era capaz de sentir gratidão. E isso me fazia bem.

Gratidão – atitude ou sentimento?

Isso também me fez lembrar de um grande amigo, o Portugal. Eu o conheci quando trabalhei na Universidade do Professor lá no Paraná, e ele era um dos meus mentores. Já avançado em idade, ele tinha sido militar, diplomata e empreendedor, mas em seu peito sempre bateu um coração de educador, então abraçou com força a oportunidade de conduzir a capacitação de professores em um dos projetos mais belos que já se fizeram nessa área.

Até que um dia recebo o telefonema que ninguém gosta nem está preparado para receber. Portugal havia sofrido o derrame que o deixaria limitado por cerca de quatro anos, até o fim. Ele sempre foi extremamente cuidadoso com sua saúde, caminhava com vigor por uma hora de manhã, alimentava-se bem e fazia seus exames regularmente. E tinha aquela alegria natural que também protege a saúde. Mesmo assim, teve um AVC. Coisas da idade, explicou o médico.

Ele já nos deixou, mas não sem antes nos dar mais uma lição de força. Durante o tempo que viveu depois do derrame, ele não  podia caminhar, falava com alguma dificuldade e dependia de ajuda de sua incansável Verinha para as necessidades mais básicas. Mesmo assim, quando o visitava ele me falava de projetos para o futuro, livros que estava lendo, novas ideias, trabalhos que precisavam ser concluídos. Começou a estudar italiano e a frequentar um centro de equoterapia. Coisas do Portugal. À saída, ele costumava dizer: “Tenha gratidão. Sempre”. E sorria um sorriso menor, mas mais verdadeiro.

Foi em uma conversa com ele que eu comecei a entender uma diferença sutil, mas fundamental, entre agradecimento e gratidão. Agradecer é um ato, tem a ver com educação, reconhecimento e justiça. Gratidão é um sentimento, é algo que se carrega no peito, que pertence à pessoa como um valor, uma filosofia de vida. Um agradecimento sincero eleva a qualidade das relações entre as pessoas. Gratidão faz mais que isso. Eleva a qualidade humana de que a tem.

Nada mais justo do que reconhecer o mérito de um ato bom. Agradecer um favor, um apoio, uma gentileza, uma orientação ou uma oportunidade não é apenas uma demonstração de reconhecimento e de educação. É um tributo à justiça.

Eu mesmo tenho que agradecer muito a muitas pessoas por muitas coisas. A meus pais pelos valores que me incutiram. A minha irmã que me incentivou à leitura. Aos professores que me ensinaram, aos médicos que me curaram, aos chefes que me puseram na linha. Aos amigos, às namoradas, aos colegas, aos vizinhos. Tenho muito o que agradecer aos meus filhos e à minha mulher, e estou certo de que ainda terei muitos motivos para agradecer a ela, e a muitos.

Há tanto a agradecer a tanta gente que passou por minha vida e que deixou marcas boas e indeléveis em meu caráter. Essas pessoas passaram, mas permanecem em mim. E sinto gratidão por isso. A elas eu já agradeci, educado que sou, mas a gratidão, aquele sentimento que aquece o peito, este continua comigo.

Agradecer faz bem

Sim, logo aprendi que agradecer é justo, melhora as relações e abre espaço para novos favores. É chato fazer um favor, ser gentil, prestar uma assistência para alguém e não perceber o menor traço de agradecimento. Agradecer é polido, simpático, e prepara o terreno para uma convivência mais agradável e profícua. Lembro de ter aprendido que as três palavras mágicas são “por favor”, “desculpe” e “obrigado”. Teriam sido elas que criaram a civilização.

O fato que me custou mais tempo de percepção, foi que a gratidão e o  agradecimento nem sempre estão juntos. Como já foi dito, o ato de agradecer é nobre e polido, desde que tenha sido gestado no útero da gratidão. Senão é falso e interesseiro. Já a gratidão, esta é algo superior, que pertence ao espírito. Como é bom ser agradecido pela vida com todas as suas possibilidades. Como é necessário ser agradecido até às limitações e dificuldades, pois estas, não só nos melhoram, como nos ajudam a perceber o valor das possibilidades e oportunidades. “Não existiria luz se não fosse a escuridão”, cantou Lulu santos.

Sem fazer nenhum proselitismo, eu afirmo que que sinto imensa gratidão até por todas as crises que tive na vida (e quem não as teve?). No meio do furacão eu me revoltava com a vida, mas depois, pensando bem, eu sempre sai melhor de uma crise do que era quando nela entrei. Não há como pagar o ensinamento que uma crise, de qualquer natureza – emocional, financeira, existencial –, é capaz de incutir em nossa mente e em nossa alma. Sim, há muitas coisas que não há como pagar, a não ser com gratidão.

Quem sente gratidão tem necessidade de agradecer e às vezes não sabe a quem. Em nossa cultura fomos educados a agradecer a Deus, como nosso criador e provedor, tanto é que “graças a Deus” é uma expressão corriqueira, ancorada no arquétipo popular. Quem nunca disse “graças a Deus”?  Essa expressão é tão forte que às vezes as pessoas se esquecem de agradecer a quem as ajudou em termos práticos: o médico, o bombeiro, o amigo, o policial. Bem, sempre podemos alegar que graças a Deus eles estavam por perto. Faz sentido.

Agradecer a Deus faz bem, conforta, alegra e dá uma sensação gostosa de estar acompanhado. Mas às vezes pensamos: “Porque Ele não ajudou aos demais? Porque só a mim? Ou porque só não a mim?”. Mas logo afastamos essa pergunta, por um simples motivo. Ela não tem resposta. Somos muito pequenos para julgar, ou mesmo compreender, todas as intrincadas artimanhas do destino.
Gratidão a quem? A Deus? À vida? Não importa. O importante é a gratidão. Ela engrandece quem a sente e dará um jeito de atingir seu alvo. Sugestão: quando achar que não tem o que ou a quem agradecer, encontre e escute a chilena Violeta Parra: “Gracias a la vida, que me ha dado tanto…”. De preferência na voz da argentina Mercedes Sosa. Você vai agradecer a dica.

Esta é uma edição de aniversário da Vida Simples. Onze anos, quem diria! E eu confesso que sinto uma imensa gratidão aqui no peito por esse convívio maravilhoso de todos os meses. E sinto vontade de agradecer, também. Agradecer aos editores, desde o primeiro, que me convidou, o jornalista Otávio Rodrigues, até nossa querida Aninha Holanda, que atualmente é a responsável por cobrar meus textos.

E, claro, agradecer aos nossos leitores, que são a razão da existência da revista. Muito grato, turma! Mas, veja só: às vezes recebo e-mails de leitores, ou encontro com alguns em eventos ou locais públicos e muitos me agradecem. “Eu estava precisando daquelas palavras”. “Parece que você escreveu para mim”. “Obrigado!”.

Agradecer faz parte. Mas o importante não é isso. Importante é o fato de que todos carregamos em nós o agradecimento. E é ele que nos torna humanos de verdade.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br
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Por que ser grato Revista Vida Simples nº 136 - 01/10/2013

- O que você está fazendo?

Não era necessário que ela respondesse. Eu sabia o que ela estava fazendo. Estávamos tomando café da manhã, a mesa era farta, o sol entrava resplandecente pelas janelas, a vista de nosso apartamento é linda, nós dois estamos em perfeita saúde e o dia que começava prometia muitas emoções. Ela olhava para fora, e eu sabia que estava agradecendo. Mesmo assim, ela sorriu e me disse, confirmando minha certeza. Gosto disso. A gratidão como filosofia de vida nos faz melhores.

Minha primeira tarefa do dia seria a de escrever meu artigo para a Vida Simples, e eu agradeci pela inspiração. E resolvi escrever sobre gratidão. Com certeza não seria um artigo muito original, pois este assunto já rendeu muitos textos, escritos por pensadores muito melhores que eu. Esopo, por exemplo, explicou que “A gratidão é uma virtude das almas nobres”. Já, Sêneca, mais pragmático, disse que “Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação de sua dívida”. Flaubert queixou-se de alguém dizendo que “Aos incapazes de gratidão nunca faltam pretextos para não a ter”.

Eu não seria nem justo nem coerente se não fosse grato a esses e outros cérebros brilhantes que alinham meus pensamentos e orientam meus escritos. Obrigado, pessoal, valeu!

O café da manhã terminou e começou o dia. E começou melhor porque sentíamos, ambos, uma gratidão antecipada pelo dia que tínhamos pela frente. Mas a maior gratidão que eu sentia não era pelo café, nem pela paz, nem pelas perspectivas, pois o que eu queria mesmo é que nada disso faltasse a ninguém. A gratidão principal vinha da percepção de eu era capaz de sentir gratidão. E isso me fazia bem.

Gratidão – atitude ou sentimento?

Isso também me fez lembrar de um grande amigo, o Portugal. Eu o conheci quando trabalhei na Universidade do Professor lá no Paraná, e ele era um dos meus mentores. Já avançado em idade, ele tinha sido militar, diplomata e empreendedor, mas em seu peito sempre bateu um coração de educador, então abraçou com força a oportunidade de conduzir a capacitação de professores em um dos projetos mais belos que já se fizeram nessa área.

Até que um dia recebo o telefonema que ninguém gosta nem está preparado para receber. Portugal havia sofrido o derrame que o deixaria limitado por cerca de quatro anos, até o fim. Ele sempre foi extremamente cuidadoso com sua saúde, caminhava com vigor por uma hora de manhã, alimentava-se bem e fazia seus exames regularmente. E tinha aquela alegria natural que também protege a saúde. Mesmo assim, teve um AVC. Coisas da idade, explicou o médico.

Ele já nos deixou, mas não sem antes nos dar mais uma lição de força. Durante o tempo que viveu depois do derrame, ele não  podia caminhar, falava com alguma dificuldade e dependia de ajuda de sua incansável Verinha para as necessidades mais básicas. Mesmo assim, quando o visitava ele me falava de projetos para o futuro, livros que estava lendo, novas ideias, trabalhos que precisavam ser concluídos. Começou a estudar italiano e a frequentar um centro de equoterapia. Coisas do Portugal. À saída, ele costumava dizer: “Tenha gratidão. Sempre”. E sorria um sorriso menor, mas mais verdadeiro.

Foi em uma conversa com ele que eu comecei a entender uma diferença sutil, mas fundamental, entre agradecimento e gratidão. Agradecer é um ato, tem a ver com educação, reconhecimento e justiça. Gratidão é um sentimento, é algo que se carrega no peito, que pertence à pessoa como um valor, uma filosofia de vida. Um agradecimento sincero eleva a qualidade das relações entre as pessoas. Gratidão faz mais que isso. Eleva a qualidade humana de que a tem.

Nada mais justo do que reconhecer o mérito de um ato bom. Agradecer um favor, um apoio, uma gentileza, uma orientação ou uma oportunidade não é apenas uma demonstração de reconhecimento e de educação. É um tributo à justiça.

Eu mesmo tenho que agradecer muito a muitas pessoas por muitas coisas. A meus pais pelos valores que me incutiram. A minha irmã que me incentivou à leitura. Aos professores que me ensinaram, aos médicos que me curaram, aos chefes que me puseram na linha. Aos amigos, às namoradas, aos colegas, aos vizinhos. Tenho muito o que agradecer aos meus filhos e à minha mulher, e estou certo de que ainda terei muitos motivos para agradecer a ela, e a muitos.

Há tanto a agradecer a tanta gente que passou por minha vida e que deixou marcas boas e indeléveis em meu caráter. Essas pessoas passaram, mas permanecem em mim. E sinto gratidão por isso. A elas eu já agradeci, educado que sou, mas a gratidão, aquele sentimento que aquece o peito, este continua comigo.

Agradecer faz bem

Sim, logo aprendi que agradecer é justo, melhora as relações e abre espaço para novos favores. É chato fazer um favor, ser gentil, prestar uma assistência para alguém e não perceber o menor traço de agradecimento. Agradecer é polido, simpático, e prepara o terreno para uma convivência mais agradável e profícua. Lembro de ter aprendido que as três palavras mágicas são “por favor”, “desculpe” e “obrigado”. Teriam sido elas que criaram a civilização.

O fato que me custou mais tempo de percepção, foi que a gratidão e o  agradecimento nem sempre estão juntos. Como já foi dito, o ato de agradecer é nobre e polido, desde que tenha sido gestado no útero da gratidão. Senão é falso e interesseiro. Já a gratidão, esta é algo superior, que pertence ao espírito. Como é bom ser agradecido pela vida com todas as suas possibilidades. Como é necessário ser agradecido até às limitações e dificuldades, pois estas, não só nos melhoram, como nos ajudam a perceber o valor das possibilidades e oportunidades. “Não existiria luz se não fosse a escuridão”, cantou Lulu santos.

Sem fazer nenhum proselitismo, eu afirmo que que sinto imensa gratidão até por todas as crises que tive na vida (e quem não as teve?). No meio do furacão eu me revoltava com a vida, mas depois, pensando bem, eu sempre sai melhor de uma crise do que era quando nela entrei. Não há como pagar o ensinamento que uma crise, de qualquer natureza – emocional, financeira, existencial –, é capaz de incutir em nossa mente e em nossa alma. Sim, há muitas coisas que não há como pagar, a não ser com gratidão.

Quem sente gratidão tem necessidade de agradecer e às vezes não sabe a quem. Em nossa cultura fomos educados a agradecer a Deus, como nosso criador e provedor, tanto é que “graças a Deus” é uma expressão corriqueira, ancorada no arquétipo popular. Quem nunca disse “graças a Deus”?  Essa expressão é tão forte que às vezes as pessoas se esquecem de agradecer a quem as ajudou em termos práticos: o médico, o bombeiro, o amigo, o policial. Bem, sempre podemos alegar que graças a Deus eles estavam por perto. Faz sentido.

Agradecer a Deus faz bem, conforta, alegra e dá uma sensação gostosa de estar acompanhado. Mas às vezes pensamos: “Porque Ele não ajudou aos demais? Porque só a mim? Ou porque só não a mim?”. Mas logo afastamos essa pergunta, por um simples motivo. Ela não tem resposta. Somos muito pequenos para julgar, ou mesmo compreender, todas as intrincadas artimanhas do destino.
Gratidão a quem? A Deus? À vida? Não importa. O importante é a gratidão. Ela engrandece quem a sente e dará um jeito de atingir seu alvo. Sugestão: quando achar que não tem o que ou a quem agradecer, encontre e escute a chilena Violeta Parra: “Gracias a la vida, que me ha dado tanto…”. De preferência na voz da argentina Mercedes Sosa. Você vai agradecer a dica.

Esta é uma edição de aniversário da Vida Simples. Onze anos, quem diria! E eu confesso que sinto uma imensa gratidão aqui no peito por esse convívio maravilhoso de todos os meses. E sinto vontade de agradecer, também. Agradecer aos editores, desde o primeiro, que me convidou, o jornalista Otávio Rodrigues, até nossa querida Aninha Holanda, que atualmente é a responsável por cobrar meus textos.

E, claro, agradecer aos nossos leitores, que são a razão da existência da revista. Muito grato, turma! Mas, veja só: às vezes recebo e-mails de leitores, ou encontro com alguns em eventos ou locais públicos e muitos me agradecem. “Eu estava precisando daquelas palavras”. “Parece que você escreveu para mim”. “Obrigado!”.

Agradecer faz parte. Mas o importante não é isso. Importante é o fato de que todos carregamos em nós o agradecimento. E é ele que nos torna humanos de verdade.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br
- See more at: http://eugeniomussak.com.br/gratidao/#sthash.tpnYXO03.dpuf

Por que ser grato Revista Vida Simples nº 136 - 01/10/2013

- O que você está fazendo?

Não era necessário que ela respondesse. Eu sabia o que ela estava fazendo. Estávamos tomando café da manhã, a mesa era farta, o sol entrava resplandecente pelas janelas, a vista de nosso apartamento é linda, nós dois estamos em perfeita saúde e o dia que começava prometia muitas emoções. Ela olhava para fora, e eu sabia que estava agradecendo. Mesmo assim, ela sorriu e me disse, confirmando minha certeza. Gosto disso. A gratidão como filosofia de vida nos faz melhores.

Minha primeira tarefa do dia seria a de escrever meu artigo para a Vida Simples, e eu agradeci pela inspiração. E resolvi escrever sobre gratidão. Com certeza não seria um artigo muito original, pois este assunto já rendeu muitos textos, escritos por pensadores muito melhores que eu. Esopo, por exemplo, explicou que “A gratidão é uma virtude das almas nobres”. Já, Sêneca, mais pragmático, disse que “Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação de sua dívida”. Flaubert queixou-se de alguém dizendo que “Aos incapazes de gratidão nunca faltam pretextos para não a ter”.

Eu não seria nem justo nem coerente se não fosse grato a esses e outros cérebros brilhantes que alinham meus pensamentos e orientam meus escritos. Obrigado, pessoal, valeu!

O café da manhã terminou e começou o dia. E começou melhor porque sentíamos, ambos, uma gratidão antecipada pelo dia que tínhamos pela frente. Mas a maior gratidão que eu sentia não era pelo café, nem pela paz, nem pelas perspectivas, pois o que eu queria mesmo é que nada disso faltasse a ninguém. A gratidão principal vinha da percepção de eu era capaz de sentir gratidão. E isso me fazia bem.

Gratidão – atitude ou sentimento?

Isso também me fez lembrar de um grande amigo, o Portugal. Eu o conheci quando trabalhei na Universidade do Professor lá no Paraná, e ele era um dos meus mentores. Já avançado em idade, ele tinha sido militar, diplomata e empreendedor, mas em seu peito sempre bateu um coração de educador, então abraçou com força a oportunidade de conduzir a capacitação de professores em um dos projetos mais belos que já se fizeram nessa área.

Até que um dia recebo o telefonema que ninguém gosta nem está preparado para receber. Portugal havia sofrido o derrame que o deixaria limitado por cerca de quatro anos, até o fim. Ele sempre foi extremamente cuidadoso com sua saúde, caminhava com vigor por uma hora de manhã, alimentava-se bem e fazia seus exames regularmente. E tinha aquela alegria natural que também protege a saúde. Mesmo assim, teve um AVC. Coisas da idade, explicou o médico.

Ele já nos deixou, mas não sem antes nos dar mais uma lição de força. Durante o tempo que viveu depois do derrame, ele não  podia caminhar, falava com alguma dificuldade e dependia de ajuda de sua incansável Verinha para as necessidades mais básicas. Mesmo assim, quando o visitava ele me falava de projetos para o futuro, livros que estava lendo, novas ideias, trabalhos que precisavam ser concluídos. Começou a estudar italiano e a frequentar um centro de equoterapia. Coisas do Portugal. À saída, ele costumava dizer: “Tenha gratidão. Sempre”. E sorria um sorriso menor, mas mais verdadeiro.

Foi em uma conversa com ele que eu comecei a entender uma diferença sutil, mas fundamental, entre agradecimento e gratidão. Agradecer é um ato, tem a ver com educação, reconhecimento e justiça. Gratidão é um sentimento, é algo que se carrega no peito, que pertence à pessoa como um valor, uma filosofia de vida. Um agradecimento sincero eleva a qualidade das relações entre as pessoas. Gratidão faz mais que isso. Eleva a qualidade humana de que a tem.

Nada mais justo do que reconhecer o mérito de um ato bom. Agradecer um favor, um apoio, uma gentileza, uma orientação ou uma oportunidade não é apenas uma demonstração de reconhecimento e de educação. É um tributo à justiça.

Eu mesmo tenho que agradecer muito a muitas pessoas por muitas coisas. A meus pais pelos valores que me incutiram. A minha irmã que me incentivou à leitura. Aos professores que me ensinaram, aos médicos que me curaram, aos chefes que me puseram na linha. Aos amigos, às namoradas, aos colegas, aos vizinhos. Tenho muito o que agradecer aos meus filhos e à minha mulher, e estou certo de que ainda terei muitos motivos para agradecer a ela, e a muitos.

Há tanto a agradecer a tanta gente que passou por minha vida e que deixou marcas boas e indeléveis em meu caráter. Essas pessoas passaram, mas permanecem em mim. E sinto gratidão por isso. A elas eu já agradeci, educado que sou, mas a gratidão, aquele sentimento que aquece o peito, este continua comigo.

Agradecer faz bem

Sim, logo aprendi que agradecer é justo, melhora as relações e abre espaço para novos favores. É chato fazer um favor, ser gentil, prestar uma assistência para alguém e não perceber o menor traço de agradecimento. Agradecer é polido, simpático, e prepara o terreno para uma convivência mais agradável e profícua. Lembro de ter aprendido que as três palavras mágicas são “por favor”, “desculpe” e “obrigado”. Teriam sido elas que criaram a civilização.

O fato que me custou mais tempo de percepção, foi que a gratidão e o  agradecimento nem sempre estão juntos. Como já foi dito, o ato de agradecer é nobre e polido, desde que tenha sido gestado no útero da gratidão. Senão é falso e interesseiro. Já a gratidão, esta é algo superior, que pertence ao espírito. Como é bom ser agradecido pela vida com todas as suas possibilidades. Como é necessário ser agradecido até às limitações e dificuldades, pois estas, não só nos melhoram, como nos ajudam a perceber o valor das possibilidades e oportunidades. “Não existiria luz se não fosse a escuridão”, cantou Lulu santos.

Sem fazer nenhum proselitismo, eu afirmo que que sinto imensa gratidão até por todas as crises que tive na vida (e quem não as teve?). No meio do furacão eu me revoltava com a vida, mas depois, pensando bem, eu sempre sai melhor de uma crise do que era quando nela entrei. Não há como pagar o ensinamento que uma crise, de qualquer natureza – emocional, financeira, existencial –, é capaz de incutir em nossa mente e em nossa alma. Sim, há muitas coisas que não há como pagar, a não ser com gratidão.

Quem sente gratidão tem necessidade de agradecer e às vezes não sabe a quem. Em nossa cultura fomos educados a agradecer a Deus, como nosso criador e provedor, tanto é que “graças a Deus” é uma expressão corriqueira, ancorada no arquétipo popular. Quem nunca disse “graças a Deus”?  Essa expressão é tão forte que às vezes as pessoas se esquecem de agradecer a quem as ajudou em termos práticos: o médico, o bombeiro, o amigo, o policial. Bem, sempre podemos alegar que graças a Deus eles estavam por perto. Faz sentido.

Agradecer a Deus faz bem, conforta, alegra e dá uma sensação gostosa de estar acompanhado. Mas às vezes pensamos: “Porque Ele não ajudou aos demais? Porque só a mim? Ou porque só não a mim?”. Mas logo afastamos essa pergunta, por um simples motivo. Ela não tem resposta. Somos muito pequenos para julgar, ou mesmo compreender, todas as intrincadas artimanhas do destino.
Gratidão a quem? A Deus? À vida? Não importa. O importante é a gratidão. Ela engrandece quem a sente e dará um jeito de atingir seu alvo. Sugestão: quando achar que não tem o que ou a quem agradecer, encontre e escute a chilena Violeta Parra: “Gracias a la vida, que me ha dado tanto…”. De preferência na voz da argentina Mercedes Sosa. Você vai agradecer a dica.

Esta é uma edição de aniversário da Vida Simples. Onze anos, quem diria! E eu confesso que sinto uma imensa gratidão aqui no peito por esse convívio maravilhoso de todos os meses. E sinto vontade de agradecer, também. Agradecer aos editores, desde o primeiro, que me convidou, o jornalista Otávio Rodrigues, até nossa querida Aninha Holanda, que atualmente é a responsável por cobrar meus textos.

E, claro, agradecer aos nossos leitores, que são a razão da existência da revista. Muito grato, turma! Mas, veja só: às vezes recebo e-mails de leitores, ou encontro com alguns em eventos ou locais públicos e muitos me agradecem. “Eu estava precisando daquelas palavras”. “Parece que você escreveu para mim”. “Obrigado!”.

Agradecer faz parte. Mas o importante não é isso. Importante é o fato de que todos carregamos em nós o agradecimento. E é ele que nos torna humanos de verdade.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br
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Por que ser grato Revista Vida Simples nº 136 - 01/10/2013

- O que você está fazendo?

Não era necessário que ela respondesse. Eu sabia o que ela estava fazendo. Estávamos tomando café da manhã, a mesa era farta, o sol entrava resplandecente pelas janelas, a vista de nosso apartamento é linda, nós dois estamos em perfeita saúde e o dia que começava prometia muitas emoções. Ela olhava para fora, e eu sabia que estava agradecendo. Mesmo assim, ela sorriu e me disse, confirmando minha certeza. Gosto disso. A gratidão como filosofia de vida nos faz melhores.

Minha primeira tarefa do dia seria a de escrever meu artigo para a Vida Simples, e eu agradeci pela inspiração. E resolvi escrever sobre gratidão. Com certeza não seria um artigo muito original, pois este assunto já rendeu muitos textos, escritos por pensadores muito melhores que eu. Esopo, por exemplo, explicou que “A gratidão é uma virtude das almas nobres”. Já, Sêneca, mais pragmático, disse que “Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação de sua dívida”. Flaubert queixou-se de alguém dizendo que “Aos incapazes de gratidão nunca faltam pretextos para não a ter”.

Eu não seria nem justo nem coerente se não fosse grato a esses e outros cérebros brilhantes que alinham meus pensamentos e orientam meus escritos. Obrigado, pessoal, valeu!

O café da manhã terminou e começou o dia. E começou melhor porque sentíamos, ambos, uma gratidão antecipada pelo dia que tínhamos pela frente. Mas a maior gratidão que eu sentia não era pelo café, nem pela paz, nem pelas perspectivas, pois o que eu queria mesmo é que nada disso faltasse a ninguém. A gratidão principal vinha da percepção de eu era capaz de sentir gratidão. E isso me fazia bem.

Gratidão – atitude ou sentimento?

Isso também me fez lembrar de um grande amigo, o Portugal. Eu o conheci quando trabalhei na Universidade do Professor lá no Paraná, e ele era um dos meus mentores. Já avançado em idade, ele tinha sido militar, diplomata e empreendedor, mas em seu peito sempre bateu um coração de educador, então abraçou com força a oportunidade de conduzir a capacitação de professores em um dos projetos mais belos que já se fizeram nessa área.

Até que um dia recebo o telefonema que ninguém gosta nem está preparado para receber. Portugal havia sofrido o derrame que o deixaria limitado por cerca de quatro anos, até o fim. Ele sempre foi extremamente cuidadoso com sua saúde, caminhava com vigor por uma hora de manhã, alimentava-se bem e fazia seus exames regularmente. E tinha aquela alegria natural que também protege a saúde. Mesmo assim, teve um AVC. Coisas da idade, explicou o médico.

Ele já nos deixou, mas não sem antes nos dar mais uma lição de força. Durante o tempo que viveu depois do derrame, ele não  podia caminhar, falava com alguma dificuldade e dependia de ajuda de sua incansável Verinha para as necessidades mais básicas. Mesmo assim, quando o visitava ele me falava de projetos para o futuro, livros que estava lendo, novas ideias, trabalhos que precisavam ser concluídos. Começou a estudar italiano e a frequentar um centro de equoterapia. Coisas do Portugal. À saída, ele costumava dizer: “Tenha gratidão. Sempre”. E sorria um sorriso menor, mas mais verdadeiro.

Foi em uma conversa com ele que eu comecei a entender uma diferença sutil, mas fundamental, entre agradecimento e gratidão. Agradecer é um ato, tem a ver com educação, reconhecimento e justiça. Gratidão é um sentimento, é algo que se carrega no peito, que pertence à pessoa como um valor, uma filosofia de vida. Um agradecimento sincero eleva a qualidade das relações entre as pessoas. Gratidão faz mais que isso. Eleva a qualidade humana de que a tem.

Nada mais justo do que reconhecer o mérito de um ato bom. Agradecer um favor, um apoio, uma gentileza, uma orientação ou uma oportunidade não é apenas uma demonstração de reconhecimento e de educação. É um tributo à justiça.

Eu mesmo tenho que agradecer muito a muitas pessoas por muitas coisas. A meus pais pelos valores que me incutiram. A minha irmã que me incentivou à leitura. Aos professores que me ensinaram, aos médicos que me curaram, aos chefes que me puseram na linha. Aos amigos, às namoradas, aos colegas, aos vizinhos. Tenho muito o que agradecer aos meus filhos e à minha mulher, e estou certo de que ainda terei muitos motivos para agradecer a ela, e a muitos.

Há tanto a agradecer a tanta gente que passou por minha vida e que deixou marcas boas e indeléveis em meu caráter. Essas pessoas passaram, mas permanecem em mim. E sinto gratidão por isso. A elas eu já agradeci, educado que sou, mas a gratidão, aquele sentimento que aquece o peito, este continua comigo.

Agradecer faz bem

Sim, logo aprendi que agradecer é justo, melhora as relações e abre espaço para novos favores. É chato fazer um favor, ser gentil, prestar uma assistência para alguém e não perceber o menor traço de agradecimento. Agradecer é polido, simpático, e prepara o terreno para uma convivência mais agradável e profícua. Lembro de ter aprendido que as três palavras mágicas são “por favor”, “desculpe” e “obrigado”. Teriam sido elas que criaram a civilização.

O fato que me custou mais tempo de percepção, foi que a gratidão e o  agradecimento nem sempre estão juntos. Como já foi dito, o ato de agradecer é nobre e polido, desde que tenha sido gestado no útero da gratidão. Senão é falso e interesseiro. Já a gratidão, esta é algo superior, que pertence ao espírito. Como é bom ser agradecido pela vida com todas as suas possibilidades. Como é necessário ser agradecido até às limitações e dificuldades, pois estas, não só nos melhoram, como nos ajudam a perceber o valor das possibilidades e oportunidades. “Não existiria luz se não fosse a escuridão”, cantou Lulu santos.

Sem fazer nenhum proselitismo, eu afirmo que que sinto imensa gratidão até por todas as crises que tive na vida (e quem não as teve?). No meio do furacão eu me revoltava com a vida, mas depois, pensando bem, eu sempre sai melhor de uma crise do que era quando nela entrei. Não há como pagar o ensinamento que uma crise, de qualquer natureza – emocional, financeira, existencial –, é capaz de incutir em nossa mente e em nossa alma. Sim, há muitas coisas que não há como pagar, a não ser com gratidão.

Quem sente gratidão tem necessidade de agradecer e às vezes não sabe a quem. Em nossa cultura fomos educados a agradecer a Deus, como nosso criador e provedor, tanto é que “graças a Deus” é uma expressão corriqueira, ancorada no arquétipo popular. Quem nunca disse “graças a Deus”?  Essa expressão é tão forte que às vezes as pessoas se esquecem de agradecer a quem as ajudou em termos práticos: o médico, o bombeiro, o amigo, o policial. Bem, sempre podemos alegar que graças a Deus eles estavam por perto. Faz sentido.

Agradecer a Deus faz bem, conforta, alegra e dá uma sensação gostosa de estar acompanhado. Mas às vezes pensamos: “Porque Ele não ajudou aos demais? Porque só a mim? Ou porque só não a mim?”. Mas logo afastamos essa pergunta, por um simples motivo. Ela não tem resposta. Somos muito pequenos para julgar, ou mesmo compreender, todas as intrincadas artimanhas do destino.
Gratidão a quem? A Deus? À vida? Não importa. O importante é a gratidão. Ela engrandece quem a sente e dará um jeito de atingir seu alvo. Sugestão: quando achar que não tem o que ou a quem agradecer, encontre e escute a chilena Violeta Parra: “Gracias a la vida, que me ha dado tanto…”. De preferência na voz da argentina Mercedes Sosa. Você vai agradecer a dica.

Esta é uma edição de aniversário da Vida Simples. Onze anos, quem diria! E eu confesso que sinto uma imensa gratidão aqui no peito por esse convívio maravilhoso de todos os meses. E sinto vontade de agradecer, também. Agradecer aos editores, desde o primeiro, que me convidou, o jornalista Otávio Rodrigues, até nossa querida Aninha Holanda, que atualmente é a responsável por cobrar meus textos.

E, claro, agradecer aos nossos leitores, que são a razão da existência da revista. Muito grato, turma! Mas, veja só: às vezes recebo e-mails de leitores, ou encontro com alguns em eventos ou locais públicos e muitos me agradecem. “Eu estava precisando daquelas palavras”. “Parece que você escreveu para mim”. “Obrigado!”.

Agradecer faz parte. Mas o importante não é isso. Importante é o fato de que todos carregamos em nós o agradecimento. E é ele que nos torna humanos de verdade.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril. Todos os direitos reservados. Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br
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